Os interesses “corporativos” dominam a nossa sociedade, com as consequências que todos conhecemos. Nas “corporações” se podem incluir alguns sindicatos, algumas associações empresariais, algumas ordens profissionais, etc e que não se confinam a defender os seus representados, indo muito para além dessas funções, com tentativas de “interferência” na vida democrática e nos mandatários legitimamente eleitos, ou ameaçando com tomada de posições de força, se os seus interesses corporativos, porque submetidos aos interesses comuns e do país, são postos em causa.
Vejam, por exemplo, esta “fresquinha”, que nos levaria a bradar aos céus, mas que nós, indefesos cidadãos, nada podemos fazer. E se o povo anónimo e independente das “corporações” resolvesse fazer greve ou tomasse uma posição de força, face a certas arbitrariedades de que é vítima?
Todos aqueles que concluem os cursos de medicina, têm emprego garantido no Estado e agora na medicina privada e para toda a vida, porque têm uma “corporação” que sempre defendeu o “numerus clausus” (limite de acessos ao ensino superior) como forma de protecção da classe profissional, acabando, assim, por “proteger”, alguma menor qualidade profissional (apesar de só os alunos “crânios” ou “marrões” do ensino secundário conseguirem entrada nas faculdades de medicina), que existe na classe médica, como noutras profissões, mas muitas delas sem essa “protecção” classista. Era, assim, a única classe profissional com essa protecção para os profissionais que ela “tutela”. Como consequência disso, o país tem falta de médicos, tendo necessidade de os importar (médicos cubanos, chilenos, espanhóis, etc), com os problemas que daí advêm e que, por outro lado, esta falta de “oferta” não fomenta a concorrência, como na maioria das outras profissões (Advogados, Economistas, Engenheiros, etc) ou actividades socioeconómicas.
Desde há uns anos, o Governo tem vindo a aumentar o “numerus clausus” nos cursos de medicina e criou mesmo mais uma faculdade de medicina (FM na Covilhã) e, por outro lado, muitos jovens portugueses, que não conseguem lugar no tal “numerus clausus”, vão estudar medicina para o estrangeiro (Espanha, República Checa, etc,- vindo agora a Ministra da Saúde a lançar-lhes o repto de virem concluir as licenciaturas de medicina em Portugal, mas e apesar disso, a falta de médicos continuará a verificar-se e também por isso, muitos deles podem dar-se ao luxo de recusar exercer medicina onde ela é mais carecida (na província, por exemplo, ou outras zonas mais problemáticas, sobrando essas vagas para os “imigrantes”.
Foram agora publicadas as vagas para o ensino superior do próximo ano lectivo e o Governo (Ministério da Ciência e Tecnologia) aumentou-as em 26 (sim 26 vagas) nas FM (25 na Covilhã) e uma na FM de Lisboa. Este aumento não vai resolver a falta imediata de médicos no nosso país (até porque a formação de um médico demora seis anos, no mínimo), até porque o erro do passado continuar a provocar desequilíbrios entre o número de médicos novos e aqueles que se reformam – é um pouco como os erros da natalidade no nosso país - mas logo o bastonário da respectiva ordem veio a “terreiro” manifestar-se contra esse aumento, argumentando que o Governo estava a tomar uma medida que iria gerar desemprego nos médicos!
Ao ouvir isso (porque ouvi e não me contaram) não ri a alto som, porque a situação da falta de médicos é dramática em muitos sítios, mas só reforça a ideia que explicitei no início, isto é, que, de facto, algumas corporações, que me dispenso de citar, têm muito poder de influência e, em muitas situações, “manietam” os governos democráticos e a própria sociedade civil, como se costuma dizer.
“Abre os olhos Zé Povinho”, apetece-me dizer, mas também lembrar a “boca” de um Primeiro-ministro, não democraticamente eleito, porque fruto do processo revolucionário dos pós 25 de Abril e que, em público disse mais ou menos isto: “aborrecem-me estas posições de força e qualquer dia ainda parto a espinha dorsal à…….”. Não partiu nada e até se demitiu ou foi demitido logo em seguida.
Assim não vamos longe – diz o povo, no qual me incluo.
* Economista


















