No seu livro de contos intitulado “As Cidades Invisíveis”, Ítalo Calvino descreve um conjunto de cidades inventadas, surreais, cada uma com a sua característica exemplar e fantástica. Com estas histórias o autor pretende reflectir sobre o complexo processo urbano e sobre as relações que se estabelecem e que caracterizam os aglomerados humanos. Uma dessas Cidades, Ersilia, caracteriza-se por os seus habitantes estenderem fios coloridos a ligar as suas casas por cada uma das relações estabelecidas – comerciais, sociais, familiares, politicas, de autoridade, amizade, amor, etc. Assim, por cada uma dessas conexões existe um fio com uma cor, que se estende entre postes colocados nas esquinas de cada uma das casas. Com este invulgar procedimento, os habitantes de Ersilia fazem da sua cidade, mais do que um conjunto de casas e ruas, uma rede visível, colorida e intrincada de relações pessoais e sociais. Ítalo Calvino quer, desta forma, demonstrar que as cidades são espaços de valores afectivos que se constroem com o tempo, muito mais portanto do que conjuntos de construções.
Vem isto a propósito da tão falada, quanto actual, desertificação do Alentejo e das suas Vilas e Aldeias que diariamente perdem habitantes. Para contrariar este abandono, há agora a peregrina ideia de que se devem construir novos aglomerados, para novos habitantes, integrados num parque que será assim uma espécie de reserva das tradições locais. Estas novas aldeias artificiais, a imitar as nossas aldeias abandonadas, serão construídas nas margens da artificial Lagoa de Alqueva. Serão povoadas por reformados do Norte da Europa que em busca do calor do Sul, dos campos de Golf e da Agricultura Biológica virão, segundo os crédulos do processo, a criar riqueza, emprego, desenvolvimento e uma nova ordem social. Ora esta ideia não tem nada de sustentável nem de realista, precisamente porque um aglomerado urbano não se faz de raiz, pela soma dos seus novos habitantes, mas sim pela rede intrincada de fios que Ítalo Calvino descreve na Cidade de Ersilia. Quem não percebe isto não entende nada da realidade social e urbana.
Se estes novos profetas do desenvolvimento estivessem mesmo interessados em fazer o que dizem – desenvolver o Alentejo criando novos espaços urbanos residenciais – executariam a experiência nos aglomerados urbanos existentes, semi-abandonados, instalando nesses tecidos sociais os tais friorentos velhinhos nórdicos, cheios de vontade de virem gozar os seus dias a jogar Golf e a plantar nabiças no Alentejo desertificado. Não precisavam de fazer estudos de espécie alguma porque bastava aproveitarem as hortas e as casas dos velhinhos Alentejanos que, com um bocadinho de paciência, ainda iniciariam os novos residentes nessa arte das sementes e dos adubos naturais. E não precisariam, ainda, de construir casas de imitação com técnicas tradicionais. Seria suficiente reocuparem verdadeiras casas de aldeia, construídas com autenticas técnicas construtivas, às quais bastariam obras de adaptação e renovação.
Este seria um projecto inovador, inteligente, amigo do ambiente, do património e das urbanidades tradicionais. A integração de novos residentes nos tecidos urbanos já estruturados, proporcionando-lhes o contacto directo com a realidade local, seria simples, barata e rentável economicamente. Seria um contributo valioso para o desenvolvimento da região, sustentado em estruturas urbanas e sociais consolidadas. No fundo, estariam a estender novos fios coloridos entre as esquinas das casas dos residentes locais e as esquinas dos novos residentes, como faziam os habitantes da cidade de Ersilia. Os novos residentes muito teriam a dar e a receber destas urbanidades em vias de extinção. Sobraria muito dinheiro para investir nestas repovoadas vilas e aldeias, sem desperdiçar rios de dinheiro dos fundos estruturais, os últimos a que vamos ter acesso, em novas estradas, estações de tratamento de água e esgoto, redes de electricidade, telefone e outras infra-estruturas que vão ser necessárias construir de raiz. Sem desperdiçar, aproveitarem as infra-estruturas existentes e subaproveitadas, melhorando aqui e ali o que fosse necessário.
Esta história que nos estão a contar tem um erro grave de argumento. A cidade de Ersília era um espaço de utopia. As novas aldeias serão um negócio particular que em vez de beneficiar os que cá estão, vai beneficiar dos apoios que deveriam ser para os de cá. É um negócio que quer aproveitar o nosso sol, o nosso património, a nossa história, a nossa cultura e a nossa paisagem. E ainda quer usar os financiamentos que eram destinados a melhorar as nossas vilas e aldeias que assim serão desviados para as aldeias privadas deles. Esta história é mais parecida com uma que já conhecemos de um fulano que dava uma couve a quem lhe desse uma horta.
* Arquitecto


















